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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Dia dos pais ou uma carta a um não-pai

Alexandre,

Gostaria de poder te escrever e te desejar um lindo dia dos pais. Queria desejar que você continuasse sendo um pai dedicado, amoroso e exemplar pra nosso menino, mas infelizmente não posso fazer isso.

Afinal, você foi por bem pouco tempo o pai que eu sonhei um dia que meu filho teria. É bem verdade que o pai que eu imaginava pro meu filho nunca passou perto do que você sempre foi como pai. E, por isso, muito provavelmente nunca esperei que você fosse ser este pai que um dia eu sonhei que meu filho teria. Aliás, o sonho a respeito desse pai se deu ou se dava antes mesmo de a gente se conhecer. Depois de me casar com você e até mesmo de desejar ter um filho, e neste caso já incluía no sonho você como pai afinal era uma condição sine qua non, eu sabia que meu filho não teria o pai dos meus sonhos. E não porque você não pudesse se tornar um pai incrível, mas porque você tinha uma histórico muito complicado e de ausência com outro filho e, infelizmente, eu não sou do tipo de mulher que acredita que com ela vai ser diferente. Por isso, desde sempre, eu já sabia que ia ser igual: que você pouco se importaria com o Arthur da mesma maneira que você pouco se importa/importava com seu outro filho.

Se eu quiser, eu também posso explicar e justificar estes fatos pelas coisas que sei, vi e vivi com você ao longo destes anos. No entanto, a falta de amor que eu sei que você teve por parte de seus pais e que você sente falta, para mim nunca vai justificar a falta de amor que você atribui aos seus filhos. Para mim, uma pessoa carente de amor não deixa de dar amor, pelo contrário, dá amor em exaustão. Pelo menos, na minha opinião. Afinal, se você não gosta de uma coisa é natural que faça o contrário dela.

Já que eu não posso desejar que você continue sendo incrível como pai, desejo que você cresça como pessoa e que você amadureça para quem sabe um dia poder ser realmente pai. Desejo que você reconheça a importância de um pai antes que o seu não possa mais estar presente e a tempo de você mesmo poder sê-lo.

Você já tem perdido coisas incríveis em relação ao desenvolvimento e crescimento do Arthur e você nunca mais terá a oportunidade de vê-lo crescer e se desenvolver e se formar como pessoa, como homem. Você já perdeu tudo isso uma vez e perde mais um vez com o Arthur.

No dia das mães você me escreveu uma carta relatando justamente o quão tarde você descobriu a importância da sua mãe e de uma mãe na vida de uma pessoa. Espero que também não perceba tarde demais a importância de um pai na vida de seus filhos.

Desejo, então, que você não satisfaça meus sonhos e nem meus planos e desejos. Desejo apenas que você possa ser mais pai é mais presente na vida dos seus filhos, afinal existem todos os tipos de pais e você não precisa se encaixar em nenhum padrão ou continuar atendendo aos meus anseios. Desejo apenas que seja o pai que seus filhos precisam, na medida exata que eles necessitam para crescerem felizes, saudáveis, amados, seguros e com lembranças incríveis do que viveram com você .

sábado, 10 de agosto de 2013

Meu mundo de filha

Amanhã é dia dos pais e, por isso, eu resolvi escrever para você sobre o meu e as lembranças que tenho dele na minha infância.

Eu não sei que relação você terá, no futuro, com seu avô, mas gostaria de te contar como ele é para mim e, especialmente, como ele foi para mim na infância.

Sei que hoje você tem medo do seu avô, mas acho compreensível afinal o jeito próprio dele não é lá cordial e nem amável, mas entenda que isso não é falta de amor e pode ser até excesso de (afinal, você é ainda o único neto dele e é inegável o quanto ele gosta de crianças). Na verdade, o seu avô materno é um fanfarrão.

Não vi e nem vivi todas as histórias que sei dele, mas elas poderão exemplificar o que estou te dizendo e também são estas histórias que compõem o quebra-cabeça que monta seu avô no meu coração e na minha vida.

Então, senta que lá vem histórias:

* Uma vez, há muitos anos atrás quando eu devia ter o teu tamanho mais ou menos, ele colou uma moeda no chão logo entrada do prédio só para se divertir com as pessoas tentando pegá-la.

* Seu avô sempre gostou muito de criar brincadeiras com dinheiro e as preferidas eram esconder dinheiro para que encontrássemos. Os críticos de plantão vão dizer que isso é uma barbaridade, mas confesso que isso nunca interferiu no juízo de valor que faço de dinheiro ou de brincadeiras. Inegavelmente estas brincadeiras estão gravadas na minha memória e eram uma festa (não pelo dinheiro, mas por brincar de encontrá-lo e ter a participação do seu avô, que nunca foi muito envolvido nas nossas brincadeiras).

* Quantas vezes na vida eu saí com ele para tomar um guaraná? Não tenho a mínima ideia, mas era a forma que ele nos chamava para o acompanhar a um barzinho ou restaurante. Era o nosso passeio: sair para tomar um guaraná. O final do passeio era sempre chato porque a gente era criança e não aguentava mais ficar naquele bar só tomando guaraná enquanto ele tomava a cerveja dele, mas como a memória é uma traiçoeira não me lembro de nada massante de nossos passeios. Me lembro apenas de sair com ele para o tal guaraná, que invariavelmente acompanhavam uma batata-frita ou um sorvete, que era para nos entreter por mais tempo até que ele quisesse realmente ir embora.

* Teu avô adora dar sustos, então isso não é privilégio seu. Quando ele chegava em casa, ele abria a porta fazendo "PEI" bem alto lá na porta e depois seguia batendo com a palma da mão na porta de cada cômodo repetindo o cumprimento, ou susto como preferir: "PEI, PEI."

* Uma vez estávamos assistindo a um filme no quarto. Eu não consigo me lembrar que filme era, se era de susto ou ET, mas lembro que estávamos todos no quarto: alguns na cama, outros no chão em frente a TV e a luz estava apagada como numa sessão de cinema e era noite. Seu avô saiu da cama e se dirigiu até a cozinha para molhar o rosto e colocar pó de café só para voltar no cômodo escuro e assustar todo mundo. Não disse que ele gosta de dar susto?

* Além dos tapas na porta e os "PEI" da vida, outra marca registrada do seu avô é a pergunta: Que mais? Ouvimos isso milhões de vezes na vida e várias delas foram em um mesmo dia. É o jeito dele puxar papo, espero que você possa ouvir muitos 'que mais?' na sua vida.

* Outra característica do meu pai é que ele não é afeito a beijos e abraços. Ele não é carinhoso embora adore crianças, goste de pegá-las no colo e beijá-las. Se nós não o beijarmos provavelmente ele nos cumprimentará com um aperto de mão. Com você ele tenta ser amoroso como é com as outras crianças, mas você tem medo dele por causa dos sustos que ele gosta de dar, então você geralmente foge dele e vê-los juntos é quase uma cena rara.

Cena rara: vocês dois juntos! Foto: Fernanda Petelinkar

* Embora goste de crianças, seu avô tem medo de segurar bebês. Assim que você nasceu ele veio te ver, mas não quis de jeito nenhum te segurar. O único jeito que conseguimos fazer isso foi colocando você em cima dele quando ele estava deitado e dormindo.

Enfim, estas foram algumas coisas que reuni para te contar e para homenagear o meu pai pelo dia de amanhã, que é dia dos pais. Provavelmente estaremos com ele como todos os anos, mas aqui fica registrado minha homenagem a ele mesmo que ele nunca leia este texto ou sequer saiba da existência dele.